DA DOR À SAUDADE

A perda de uma pessoa amada é uma das experiências mais Intensamente dolorosas que o ser humano pode sofrer. Bowlby Ao me dar conta da proximidade do dia de finados, me veio à lembrança a imagem das pessoas queridas e tão amadas que fizeram parte de minha vida e que já se foram. A saudade tomou conta de meu ser e não consegui segurar as lágrimas. Agradeci a Deus e à vida pela oportunidade de ter conhecido e convivido com cada uma delas.

Em minhas reflexões, percebi que a vida e a morte chegam ao mundo de mãos dadas. Contém-se e complementam-se mutuamente, sendo compreensíveis e fazendo sentido se colocadas uma em relação à outra. Dessa maneira, viver encontra sentido quando a morte é integrada à vida ou vice-versa. (1)

Cedo ou tarde, a morte se faz presente em nossa trajetória existencial. Simplesmente chega, esperada ou não e vai embora, porém nunca de mãos vazias. Em seu rastro, deixa uma sensação de imensa dor, vazio e um corpo gélido e sem vida. A partir daquele momento nada do que foi jamais voltará a ser. Esta constatação é, muitas vezes, desesperadora e angustiante.

Com a morte de uma pessoa querida, somos também convidados a pensar em nossa finitude, encarar a realidade de que não somos eternos e que não podemos impedir ninguém de morrer, se esse for seu destino. (2)

Para lidar com a perda de umapessoa querida, sabiamente buscamos recursos internos e externos que podem nos ajudar a lidar com essa realidade tão dura. Digo dura pelo fato de que não estamos preparados para perder, para desapegar e deixar ir. Nem sempre esses recursos que dispomos são suficientes e se faz necessário buscar ajuda profissional.

Em minha prática clínica tive a grata satisfação de acolher e ajudar muitas pessoas enlutadas e percebi o quanto um psicólogo pode auxiliar aos se encontram em uma situação de luto pela perda por morte de uma pessoa querida. Essas pessoas chegam à terapia muito fragilizadas devido ao intenso sofrimento. Ao acolher uma pessoa enlutada, o psicólogo o faz de forma atenta e respeitosa, valida sua dor e sofrimento, concede espaço para que ela fale de sua perda e tempo para ressignificá-la. Não toma para si a pretensão de curar o(a) enlutado(a) de sua dor, todavia propõe-lhe a oportunidade de “se deixar ser cuidado(a)” para que possa retomar sua vida sem culpas ou ressentimentos e a conviver com a ausência física do(a) ente que se foi de forma saudável. (3)

Quando o enlutado consegue “dizer adeus”, a dor pode dar lugar à saudade. Costumo dizer que saudade é algo saudável, pois somente sentimos saudades do que foi bom e não do ruim. A vida jamais será como antes, não há quem passe por essa experiência que relate o contrário. Ela fica diferente. Ao perceber e aceitar esta realidade, a pessoa enlutada retoma seu equilíbrio interno e consegue prosseguir, agora sem a presença física do ente querido, mas com as boas lembranças de uma vida vivida juntos.

Por Elaine Lima – CRP 01-13665

(1) – Freitas, J. L. (2010). Experiência de adoecimento e morte: diálogos entre a pesquisa e a Gestalterapia. Curitiba: Juruá. – Hillman, J. (2009). A experiência da morte. In: Suicídio e alma. Petrópolis: Vozes.
(2) Santos, F. S.(2007). Perspectiva histórico-culturais da morte. In: A arte de morrer: visões plurais. Organização de Dora Incontri e Franklin Santana Santos. São Paulo: Comenius.

(3) Juliano, J. C. (1999). A arte de restaurar histórias: diálogo criativo no caminho pessoal. São Paulo: Summus.

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